O desenho a bico de pena – A. Kubin

No vasto campo do desenho, o desenho de bico de pena tem uma autonomia especial. Sua vantagem é a improvisação, o esboço. Isento de lutar com o material rígido, a pena empunhada por um mestre mostra em poucos traços do que ela é capaz. Na realidade, por trás dos minutos que dura a realização do desenho, há muito em anos de estudo e experiência.

Grafite, carvão, giz ou pincel convidam a trabalhar a tonalidade, levam a utilizar grandes áreas.
Com a talhadeira, a estaca e o maçarico de madeira, a linha encontra seu ponto mais alto de desenvolvimento, mas o brilho mais vivo está nos traços vibrantes do bico de pena que não encontramos em nenhum outro lugar. Reconhecemos na economia de recursos do traço do desenhista, o sinal mais impressionante de um verdadeiro prodígio.

Os personagens, o movimento, a luz e o ar são representados de tal forma que nenhuma análise pode aprofundar ainda mais o segredo desta arte.

O tubo tão dócil do bico de pena ou do “bambu” flexível permite a manifestação do temperamento do desenhista se manifestar imediatamente em sua arte.

Esta propriedade que o caracteriza, independente da sua vontade, pode muito bem ser a origem da vida misteriosa que anima esta arte. Eu conheço traços de bico de pena em desenhos “de animais” selvagens Urs Graf, Rembrandt ou ainda de seu genial companheiro de mesa Brouwer, cuja força mágica é de tirar o fôlego. Ao contemplá-los chega-se a tremular por assim dizer, no mesmo ritmo louco que os primitivos diante dos relâmpagos. Mas tais brilhos são naturalmente raros e são golpes de sorte.

Encontramos em alguns desenhistas numerosos desenhos, executados com minúcias, serem usados tanto para refinar o estudo das formas da natureza tanto para melhorar o manejo do bico de pena. Frequentemente trata-se de trabalhos preparatórios para outras obras, por exemplo, as ilustrações. Estou pensando aqui, para dar alguns exemplos do passado, nos numerosos desenhos de Durer, Altdorfer, Wolf Huber, Pieter Brueghel. Quanto aos modernos, cito Cornelius, Schwind, L. Richter, e dos nossos dias, Menzel, Klinger, Thoma, que produziram dessa maneira excelentes formas sutis e detalhadas.

Eles são modelos. Um nível abaixo na mesma categoria, chegamos aos desenhos – muito estreitos e como rabiscados por professores de desenho – de artistas medíocres, assim como desenhos de bico de pena – supostamente “leves”, mas totalmente desprovidos de vida – dos nossos maneirismos que se encontram tantas vezes em livros ilustrados. Finalmente, as produções confusas e conturbadas de diletantes que têm o encanto de sua inocência ou sua singularidade, representam a ralé. Com elas termina a série de fenômenos artísticos.

A leveza que vem da simplicidade da ferramenta, nos demonstra de maneira precisa e ideal a unidade da sensação e do espírito, que, se aliam ternamente à matéria, tornando-se a alma de uma criação em miniatura.

Não estamos longe disso com os artistas que são propensos a sonhar acordados e felizes de usar os belos instrumentos que são os bicos de pena de Rodolphe Topfter, Wilhelm Busch, Oberlander, Rudolf Wike, Th.Heine, cujas melhores obras suscitam num vasto círculo de alegria e reflexão.

Mas se desenhamos, também escrevemos com o bico de pena e esse parentesco entre escrita e desenho no Extremo Oriente, para os chineses e japoneses, é, como todos sabem, de extrema importância – lá o pincel para escrever ainda substitui o nosso bico de pena. Os desenhos em nanquim da China das melhores épocas, alguns já velhos de muitos séculos e composto por metades de caligrafia, são o que a arte em preto e branco produziu de mais importante no mundo em sentimento e na perfeição formal.

No entanto, o Ocidente não tem nada que se envergonhar, porque onde se poderia desenvolver uma arte pessoal, os artistas produziram sua emoção através de obras comparáveis.
De minha parte, eu prefiro os impulsos apaixonados de um Delacroix ou um Daumier com desenhos um pouco vazios, com seus contornos elegantes e estilizados dos nazarenos e dos clássicos – é uma questão de temperamento e de gosto.

Mas eu sempre sinto uma impressão duradoura quando o desenista literalmente entra na profundidade do mundo, e é precisamente aí que se encontram os desenhistas germânicos, que , pela riqueza dos problemas que apresentam me interessam profundamente. Os poderosos desenhos de bico de pena de Van Goch, a gente diria entrecortados , têm absolutamente o mesmo valor de seus quadros; Liebermann, Corinth, Munch, Slevogt, Berckmann, Grobmann, Bech e consortes literalmente cavam seus projetos, sempre acabam por desistir e depois tateiam ou melhor dão livre curso à seus desejos. Não há nada a ser aprendido com essa tendência lamentável que só leva à esterilidade.

Para dar a um desenho uma versão mais pictural ou para acentuar mais em nossa mente, colocamos por vezes cores neutras ou ainda deslava-se o conjunto. Em sua lavagem (lavis), Rembrandt ainda é – como constata um olho treinado – um professor incrível. De todos os outros artistas tão famosos quanto diferente, eu quero mencionar aqui um dos mais singulares, um francês, que toda a sua vida, sacrificou tudo para este trabalho: Constantin Guys, cujos anos mais ricos se situam entre os dois Napoleão, trabalhou até sua morte. A morte surpreendeu o pobre homem de 83 anos, totalmente esquecido, no início de 1893. Baudelaire consagrou um bom ensaio para sua arte. Guys era um aventureiro, no melhor sentido, que cruzou o mundo: Paris, Inglaterra, Oriente – com um grande interesse no que a realidade tem de fabuloso, de dia ou de noite, na guerra e na paz, nas praças como nas ruas, nas esquinas, nos restaurantes, nos teatros, nos bares e nos bordéis.

Removido de seu imóvel, moldou, muito provavelmente à luz de uma lâmpada até o início da manhã, com imagens fugazes de suas memórias, de tal modo que nós podemos agora, ainda sentir em milhares de desenhos levemente coloridos ou ligeiramente retocados com aquarela, o perfume imperecível de uma época passada. O brilho era para ele uma aventura emocionante e provavelmente era o mesmo para todos aqueles que o precederam nesta arte rápida como eu descrevi acima, a arte da improvisação.

Os verdadeiros desenhistas de bico de pena são os improvisadores. Aparentemente mais superficial do que os pintores, na realidade, eles estão muito mais próximos da vida. A vida agora nos parece mais fluida, bruta, triunfante e possuída! Para aqueles que concebem de forma diferente, um bom desenho de bico de pena não fará muito sentido.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s