Os desenhos de Van Gogh


Aline Tafner

 

Os desenhos dentro da obra de Vincent Van Gogh (1583-1590) ocupam um lugar central e, mesmo que em alguns casos, se tratem de estudos para pinturas, possuem uma autonomia vinculada à especificidade dos materiais. Estes possuem potencialidades e limitações muito investigadas pelo artista e é esta consciência – e por que não dizer, respeito – que está no centro de uma produção gráfica gestada numa manipulação irrestrita dos meios, cujo resultado observa-se nos mais de mil desenhos deixados por Vincent.

Sua obra gráfica nos revela uma capacidade de observação daqueles que parecem não ter pressa. A alma descritiva de Van Gogh fica expressa tanto pelos traços de seus desenhos como nas cartas ao irmão. Atenta-se profundamente às relações de textura, tonalidade, cor e composição, seja nas paisagens ou nas figuras. Para o artista, este rigor não se traduz num realismo congelado, mas revela para além da imagem, apresentando um universo sinestésico que nos desperta a melancolia diante de soluços de desilusão; o temor da solidão cercada por árvores, cujos galhos rangem diante do vento invernal; ou a indolência ao observar trabalhadores campestres num dia quente.

À observação de Van Gogh não são necessários cenários preparados, monumentos ou paisagens transcendentais. Debruça-se sobre figuras populares, locais familiares e cenas prosaicas. Certamente estas preferências nos revelam uma grande sensibilidade por parte do artista que, se permitia buscar poesia no menos estonteante ao gosto de Rembrandt. Sua acuidade perscruta são só o ambiente externo, como igualmente o interno, seu e de seus modelos. Parece filtrar e decantar aspectos impalpáveis da natureza, obtendo como resíduo algo de universal revestido de uma roupagem aparentemente simplória.

Além da intensa observação da natureza, Vincent nos faz pensar numa apurada análise dos materiais que se utilizava para produzir seus desenhos. A própria pena de instrumento, passa a objeto e também é desnudada em seus múltiplos vértices. Van Gogh se vale dos diversos desdobramentos que ela pode produzir. A linha é traçada em todos os seus sentidos: vertical, horizontal, paralelas, cruzadas ou ondulantes. De repente as reduz a inúmeros traços curtos, mais ou menos afastados e pulsantes, que exigem do olho do observador um esforço integrativo e contentor para que não se libertem do papel e vaguem pelo espaço a fora. Como se não bastasse, os traços tornam-se ainda mais diminutos transfigurando-se em pontos que se espalham inquietos pela folha. As penas de bambu, menos flexíveis do que as de metal, também são interrogadas insistentemente por Van Gogh e respondem aos seus apelos com linhas de várias espessuras e diversas graduações de transparência. Essa experimentação da linha, que chega a transbordar em manchas, tece uma trama sobre o papel, evidenciando a imagem com a qual o artista se relacionou sem reservas.

Ao conviver com estes desenhos, temos a impressão de que a luz emanada do papel também se torna matéria prima. A sensação é que, da mesma forma como um escultor retira o mármore para construir uma peça, Van Gogh retira da folha do papel sua luz ofuscante. Vai ceifando-a com suas linhas e pontos em todas as direções até que surge a imagem. Trabalha com um gradiente que vai desde manter a alvura imaculada, escurecendo-a levemente a meios tons, podendo atingir uma escuridão compacta. Em outros casos, já inicia seu intento com uma luminosidade baixa de um amarelo quente e faz o movimento contrário: de constituir – com tinta branca opaca – a claridade originalmente branda.

Todas as suas investigações parecem encontrar em seus desenhos e em suas cartas um teor documental que contém, ao mesmo tempo, a construção do mundo e da técnica – enquanto desenha, compreende. Sua produção gráfica evidencia um olhar minucioso que resultou num esforço incansável ampliador de um repertório, tornando-se uma contradição trágica o reduzirmos à alcunha de “o pintor dos girassóis”. Seus desenhos encerram um universo de questionamentos impossível de se abarcar completamente. Existe algo neles que dialogam com algo em nós e é este mistério que nos impele ao mergulho.

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Bibliografia de referência:

Ives, Colta Feller et al. (2005) Vincent Van Gogh: The Drawings. New York: Metropolitan Museum of Art.

Van Gogh, Vincent (1997) Cartas a Theo. Trad. Pierre Ruprecht. Porto Alegre: L&PM.

http://www.vggallery.com/ – banco de imagens e cartas completas

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