O Desenho de Rembrandt

O Desenho de Rembrandt

Giovanna Corrêa Lucci

Famoso por suas pinturas, impressões e desenhos feitos há mais de trezentos anos, Rembrandt foi um dos artistas mais versáteis e inventivos que já viveram e, por isso, nunca poderá ser compreendido por completo. Nesse sentido, mais importante do que entender o contexto, a época, o local e os acontecimentos que contribuiram para a formação do artista e de sua obra, é perceber as emoções que a obra em si é capaz de propiciar, já que, palavras não conseguem captar a expressividade dinâmica de sua arte. Sendo assim, o intuito deste ensaio não é uma análise estilística, mas sim do clima que ronda sua produção.

 

Há algo a mais em suas obras, fora a sua qualidade artística, que faz delas especiais e embora sua forma de desenhar tenha mudado ao longo dos anos, o foco de seus desenhos sempre foi a observação do mundo ao seu redor e dos sentimentos humanos. Com o tempo, sua abordagem se tornou mais pessoal e independente. Rembrandt simplificou cada vez mais seus métodos, cristalizando um estilo distinto de desenho, onde marcos da maestria do mesmo foram abandonados e substituídos por linhas angulares ou retas, finas, quebradas e desleixadas. Com uma grande economia linear, de gestos simples e incisivos, era capaz de retratar e entender a personalidade humana de forma profunda com poucas pinceladas rápidas e sequenciais, alcançando o perfeito balanço entre técnica e sentimento.

 

Seus desenhos são marcados por uma extraordinária variedade de estilos e técnicas, que mostram sua autonomia em relação à escolha dos materiais e dos procedimentos. Apesar dessa variedade e da liberdade que possuía no sentido de invenção com os instrumentos e materiais, respeitava profundamente as características de cada um deles favorecendo cada vez mais a tinta e a pena em seus estudos. Estas, por sua vez, deram aos seus assuntos uma forte corporalidade ao mesmo tempo que permitiam pequenas sutilezas na definição dos contornos e das superfícies. Em suas mãos, a pena ganhou clareza, leveza e diversidade e seus desenhos se tornaram bem mais despojados e simples, fluidos e livres, conforme ele passava a dominar estes materiais com maior destreza.

 

Seus apontamentos e estudos eram esboços rápidos, nos quais é possível perceber a enorme agilidade, segurança e certeza que possuía e empregava. Neles, ele quase não volta atrás, não se arrepende, resultando em figuras que são ao mesmo tempo extremamente simples e impressionantemente vivas, figuras que mostram o momento retratado com explícita clareza, assemelhando-se a um instantâneo.

 

Estes mesmos desenhos feitos por ele poderiam ter as mais diversas funções, como por exemplo estarem ligados a projetos, servirem de estudos para pinturas, água-fortes ou até mesmo serem uma espécie de apontamento para ajudá-lo a compreender certo ângulo de uma figura. Com tantas finalidades e sendo estas tão diversas, torna-se impossível a tarefa de classificar cada desenho em uma única categoria.

 

Vida, caráter e, acima de tudo, luz, eram os objetivos particulares de seus estudos e, por isso, Rembrandt dedicou a maior parte do seu tempo à observação das pessoas e da vida ao seu redor. Ele tinha algo de conservador em seu gosto por modelos, pois preferia o velho ao novo tanto em relação às paisagens como em relação às pessoas. Porém, embora muitos estudos de paisagens tenham sido realizados, o estudo da face humana o fascinava mais do que qualquer coisa na natureza.

 

Sua amostra contém todos os tipos de figuras e de situações humanas individuais e arquetípicas. Ele expandiu seu repertório para além dos velhos, vagabundos e mendigos, capturou os idosos e os jovens, os comerciantes e os atores, os visitantes exóticos, os animais e a vida de mulheres e crianças. Todos, retratados quase sempre com seus gestos suspensos, contidos, são como um ciclone momentaneamente dominado e parecem conter um drama extremamente espesso, pesado. Drama, este, que ele coloca nos olhos de seus modelos e que inevitavelmente, quer estejam nos olhando diretamente ou não, nos atrai, captando nossa atenção com um tipo curioso e inexplicável de fascinação.

 

A sua abordagem de todos os assuntos que parece apaixonada, afetuosa, simples e humana, tem a ver com aqueles aspectos do caráter humano que são intangíveis, que são sentidos pela compaixão e pela sensibilidade, mais do que vistos. Aspectos que são mais sugeridos pela expressão, do que demonstrados de forma explícita na forma de uma testa, queixo ou nariz. Raiva, ódio, tristeza e alegria são todos representados tão naturalmente que parece possível deduzir pelo desenho o que cada figura está sentindo e dizendo. As bocas parecem emitir sons exatos e os olhos mais parecem nos observar e pensar.

 

Rembrandt é conhecido por ter representado as pessoas como elas realmente eram ao invés do modo como elas gostariam de ter sido ou pensavam que deveriam parecer. Ele é admirado por pintar pessoas cujos rostos expressam seus verdadeiros sentimentos e refletem a vida com todos os seus desapontamentos. Uma obra dele não só detém o tempo, relacionando-se assim com o futuro, como também permite que o observador retorne à outra época. Seus modelos representam toda a humanidade e a alta posição de Rembrandt no mundo da arte repousa não apenas na originalidade de sua mente, no poder de sua imaginação e na sua profunda simpatia com seus assuntos, nem na fartura de luz e sombra empregradas, ou na integridade de seus modelos, mas acima de tudo, na intensa humanidade do homem em si. Sendo assim, mesmo que boa parte de sua obra não se deva à observação, mas sim à sua imaginação, um bom artista pode convencer que a arte é mais parecida com a vida do que ela realmente é.

 

Bibliografia de Referência:

GENET, Jean. Rembrandt.  1ª ed. Rio de Janeiro; José Olympio, 2002. 86 p.

ROBINSON, William W.; SUTTON, Peter C.. Drawings by Rembrandt his Students and Circle.  1ª ed. New Haven and London; Yale University Press, 2011. 191 p.

SCHWARTZ, Gary. Rembrandt.  1ª ed. New York; Harry N. Abrams, Inc., 1992. 92 p.

SCHWARTZ, Gary. http://www.garyschwartzarthistorian.nl/ (Acesso em 2012).

SLIVE, Seymour. Rembrandt Drawings.  1ª ed. Los Angeles; J. Paul Getty Museum, 2009. 252 p.

 

 

 

 

 

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