A pena ou a ponte

O encontro entre o desenho e a escrita.

As canetas que utilizamos por mais simples que sejam, conservam a magia do cálamo: uma haste delicada e simples que, entre os dedos, realiza em papel, cerâmica, pergaminho e outros suportes contemporâneos, desde a antiguidade, um desenho.

O atrito, a linha como uma maneira de registrar as coisas, forma uma ponte viva entre os pensamentos que se misturam no espírito, facilitando a passagem da escrita criada pela ponta.

Essa tecnologia de aproximação de destinos e sentimentos para criar imagens e textos moldou, ao seu modo, toda uma paisagem de figuras e signos usados por milhares de artistas, através de materiais naturais ou artificiais.

Entendo como escrita aquilo que foi inscrito pela linha em determinado destino material e espalhado, conservado e construído pela expressão gráfica.

Gráfica é ação, permanência e invenção no suporte do mundo: a luz e a sombra, unidas não como limites para Deus, mas uma espécie de nave mãe para os que pintam e esculpem, desenham e escrevem na árvore do conhecimento, onde os frutos podem ser colhidos com uma dose de pecado.

A idéia, a apropriação daquilo que chamamos de inspiração – desejo – fluência (uma palavra importante para entendermos a linha e a própria importância da pena, como uma ponte entre o mundo interior e exterior) precisa de uma figuração para existir. E a base para este signo, para essa figura, além do material de contato, é o movimento animado da tinta.

A pena encontra-se entre nós não só pelo privilégio dos artistas de figurarem as estações internas do homem, mas também pelo senso comum e simples de redigir ou anotar um recado ou uma carta.

A caneta BIC não é mais do que a pena carregando todo o sentido gráfico e espiritual da pena, desde a caligrafia ao desenho: unindo ambas na mesma palavra.

Podemos pensar na haste como uma varinha mágica, onde as idéias obscuras são expostas na luz através da linha ou do sulco no tempo, produzindo assim um significado especial para o artefato, onde as mãos podem brincar e moldar, enriquecer e passar pela história por um único traço.

A escrita e com isso a criação da linguagem do espaço mental para o material passou por esta ponte, inclusive nos meios digitais, anotando o mundo ligado pelo ritmo muscular de uma carta.

Existe toda uma beleza no traçado contínuo, gráfico, interrompido por intervalos regulares para abastecer a pena, ou para apontar na tela de cristal líquido o ícone, que faz pensar o tempo como uma escritura: uma trilha luminosa no plano.

Com apenas um toque na tela de um Tablet e a carta do mundo é aberta em janelinhas que aparecem e desaparecem num piscar de olhos.

E tudo se conserva na nuvem.

 

Ulysses Boscolo de Paula, noite de 24 de fevereiro de 2012.

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