Evolução do desenho a aguada.

No século XV, Cennini (1370-1440) considera a aguada como um complemento do desenho a pena assim como das pontas de metal e nos coloca em face das minúcias que sua prática nos traz: “…Para conseguir as sombras, usando aquarela, coloque duas gotas de tinta dentro de uma nós cheia de água. Com a ponta de um pincel, podemos esboçar com hachuras as dobras principais de um panejamento. Uma vez que essa 1ª operação foi terminada, podemos somar ao líquido mais duas gotas de tinta e com isso retornar as sombras como desejado e depois retornar ao detalhe com a ponta do pincel…se sua aquarela tem um tom baixo, diz ainda Cennini, você pode retornar as suas sombras muitas vezes, sem ira e com amor, ela se fundirá como um esfumato.”É através dessa técnica que as escolas italianas do Quattrocento vão adquirir o sentido dos valores tonais. Leonardo (1452-1519) tanto praticou como ensinou essas técnicas. Assim como Pollaiollo (1432?-98) e Botticelli (1446-1510) não conheceram outra, tratando o claro escuro sem a ajuda de realces de branco. Sob a influência mais ou menos direta dos antigos, as escolas italianas tendem a construção de uma figura mais sóbria, evitando os contrastes violentos.

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Leonardo da Vinci, 1573 “Cabeça de Mulher”, tinta sobre papel, 28.2 x 19.9 cm, Galleria degli Uffizi

É da Itália do norte que parte o movimento que irá transformar o estilo e a com concepção das aguadas. Os venezianos, desconfortáveis com a paciência metódica medieval e, desde o século XV, com Carpaccio (1460-1520) construindo aguadas de figuras com longos traços de pincel verticais e no XVI, com Ticiano (1485-1576), Tintoreto (1518-1594), Véronèse (1528-1588), Bassano (1510-1592), ligados mais aos problemas da luz e do espaço, do que aos da forma, encontravam nas aguadas uma amplitude pictórica até então desconhecida. Por meio de um sistema de pinceladas com dois golpes, contendo misturas com proporções diferentes de pigmento e água, eles obtinham combinações de gamas ricas de contrastes e nuances. O desenho se abre também aos movimentos proporcionados pelo líquido e eles rejeitam deliberadamente as maneiras temperadas, recomendadas por Leonardo assim como por Cennini. Abrindo mão também das sombras mais profundas e violentas, eles não hesitam em colocar as suas figuras na luminosidade do dia em pleno sol.
Essa maneira de desenhar influenciou muitos artistas dentro e fora da Itália. Adam Elsheimer (1578-1610) fez muito uso dela para trabalhar variações de efeitos de luz diurnos e noturnos. Fatura sóbria, simplicidade de planos e massas serão marcas de seu desenho. Além de se mostrar audacioso no uso da luz e da sombra, seu trabalho de tal modo será audacioso e inovador, que iremos encontrar suas influencias em Claude Lorrain (1600-82), em Rembrandt (1606-1669) e em Rubens (1577-1640), para só citar três dos grandes, estendendo assim a influência veneziana para a França, a Holanda e Flandes.
Mais especificamente na França, a maneira sóbria de Primatice (1504-70) vai prevalecer na maioria dos desenhistas do séc. XVI e também na segunda escola de Fontainebleau, nesse caso com um desenho mais livre contrastado e movimentado. No começo do século XVII, aparece uma nova aguada com Callot (1592-1635), transformando os seus desenhos em aguadas claras, desenvolvendo contrastes sutis entre os planos, de modo a iluminá-los com regularidade, sem esconder elementos das cenas
As buscas de novos modos de desenhar à aguada que vão dirigir a evolução da técnica no século XVII nos conduzem a Rembrandt e também a Poussin (1594-1665) e Claude Lorrain.
Claude Lorrain é tão importante quanto Poussin e suas técnicas ensejam diferentes visões do espaço. Claude desenhando objetiva não somente a distribuição de luzes e sombras, como é o caso de Poussin, mas desenha primeiro para se assessorar e construir suas paisagens, onde os elementos que a compõe, suas árvores, rochas, água, céus, jamais negligenciados, compõem sempre um clima. A pena também desempenha um papel fundamental. Se os traços e hachuras formam a ossatura do desenho, a carne é feita com a aguada.

Claude_Lorrain_-_Floodplain_with_Watering_Place,_c.1640_-_Google_Art_Project
Claude Lorrain, “Planície na cheia com bebedouro” (tradução livre), 1642, tinta sobre papel.

A técnica de Rembrandt é mais complexa, sábia e misteriosa, comportando traços estranhos, que podem ser largos ou pequenos, numa métrica livre, onde oposições de valores, matérias, tons e sobreposições, compõem refinamentos, numa construção de luminosidades internas das figuras. Ele tem no cultivo de seus desenhos, nas manchas feitas com bistres, a golpes firmes de pincel, uma singular força de sugestão. A ambiência poética parece criada de saída, onde Rembrandt engendra ao seu capricho áreas de claros e escuros. E é dessas sombras que ele faz brotar a luminosidade, não hesitando em contrariar as leis da natureza para chegar a uma representação forte de suas iluminações.

Rembrandt_Harmensz._van_Rijn_-_Dutch_Farmhouse_in_Sunlight_-_Google_Art_Project

Rembrandt Harmensz van Rjin, “Casa de Fazenda Holandesa à Luz do Sol ” (tradução livre),  1635- 1636,

tinta   sobre papel, Szépmuvészeti Múzeum.

 

Sem reproduzir os efeitos poderosos que os grandes desenhistas do século XVII deixaram como modelo, o XVIII se ligou sobretudo às meias tintas. Em Veneza, Tiepolo (1696-1770) e Guardi (1712-93) usaram as aguadas para evocar a umidade das paisagens lagunares atmosféricas através de suas luzes e sombras. Ambos se rendiam às luzes transparentes, jamais negras, em que a água refletia como espelho os efeitos do sol. Subordinaram as formas à ambiência nebulosa e se contentaram em sugerir os corpos que, marcando as aguadas com uma característica quase impressionista, parecem perder seus contornos quando absorvidos pela atmosfera.

A influência desse desenho pode ser notada na França, em Watteau (1684-1721) e seus imitadores, com a diferença que esses desenhos franceses muitas vezes tem da pena uma intervenção mais aguda nas formas indicadas pelas aguadas. Fragonard (1732-1806) também não escapa dessa prática nas suas composições, fazendo do inacabado uma chave estrutural para suas criações espaciais luminosas.
Na escola Francesa do séc. XIX, temos que considerar dois tipos essenciais de aguada: a clássica de Géricault (1791-1824), que nos aproxima de Poussin e as aguadas rembrandtianas de Daumier (1808-1879), onde o pincel cria formas crivadas de sombras, como que agitadas por uma chama invisível. Técnica fácil na aparência, mas que na verdade é bastante sábia e inimitável.

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Honoré Daumier, “Objeção para a Defesa” (tradução livre), começo dos anos 1860, 14×19,5 cm, tinta e giz sobre papel.

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