I – A Pena

O uso da pena e da tinta remonta aos primeiros anos da era cristã, para a cultura ocidental, mas sua ancestralidade é garantida pelo uso de canas e calamos já entre os egípcios. Imagina-se um momento específico, em que um calígrafo na civilização do Nilo tenha aglutinado preto de fumo e água com goma arábica, fazendo com que os signos escritos e desenhados ficassem fixados sobre o papiro.

A pena de bambu chega à Europa, onde começa a ser substituída pela de ganso. Mais tarde, começa-se a usar penas de galo e corvo, que, em razão da sua fineza, pareciam “muito apropriadas para desenhar a paisagem”; e as penas de cisne, “boas somente para fazer trabalhos mais grosseiros, como as bordas do desenho”. As variações nas qualidades das penas denotam um alto grau de exigências com relação àquelas requeridas pelos calígrafos e desenhista medievais. A riqueza dos traçados tem paralelo com o livro iluminado medieval, que cria um sofisticado sistema de aproximações e diferenciações entre texto e imagem. Criando pontes entre o que chamamos de escrita e desenho, o calígrafo e o iluminador desenvolvem uma noção de escritura, que muito animaria discussões contemporâneas sobre o assunto. O desenho era apreciado e usado como um modo distinto de representação, favorecido por suas ligações simbióticas com a escritura, por sua capacidade de evocar o antigo, por sua clareza didática, por sua relação seminal com a observação direta do mundo, sem desprezar toda e qualquer relação do desenho com a imagem e com uma ideia de beleza. Até o século VIII, as fontes são variadas e distintas e vão desde cópias de “corpus” grego-romanos, passando por ensaios locais sobre assuntos diversos, até construções e cópias de livros religiosos ilustrados. A partir do século IX, já no período Carolíngio, a estabilidade vivida pelo reino de Carlos Magno produz os primeiros mecenatos relativos a livros e a demanda começa a aumentar. É o momento mais característico do livro medieval, onde a produção nos scriptorium dos mosteiros tem início. Imagens podem guiar a leitura dos textos, assim como o texto pode iluminar a visão das imagens. Portanto, imagens e textos são estruturas integrais na composição da página do livro e pela linha se dá a conexão entre figura e palavra, onde a pena tem papel seminal.

No Renascimento, o desenho navega entre as águas da heteronomia e da autonomia e transforma-se como linguagem na base das artes e do pensamento visuais. A pena continua a ser usada, mas abandona a composição ritmada pela escrita e torna-se instrumento de anotação rápida, de escritura visual.

Nos séculos XVI e XVII, a pena de bambu reaparece, mas como não possuía a destreza nem a fluência de uma pena de ganso, pois sua ponta rígida responde mal à pressão, dá um traço largo, enérgico e duro, sendo menos suscetível a variações de espessuras. Passa a ser utilizada como ferramenta de anotação rápida, servindo-se das interrupções e golpes certeiros para obter tanto delicadezas quanto para construir espacialidades essenciais. Alguns mestres lhe deram um emprego freqüente, como Luca Cambiaso, Adam Elsheimer (1578-1610) e Rembrandt (1606-69). De qualquer forma, será a pena de ganso, por ser capaz de produzir traços largos e vigorosos, bem como linhas mais seguras e delicadas, com a mesma desenvoltura, que servirá durante mais de um milênio a desenhistas e calígrafos, sendo abandonada somente no século XIX, quando da invenção das penas de metal.


Luca Cambiaso
O Menino Jesus dando seus Primeiros Passos
ca. 1570
Museu de Arte de Santa Bárbara

drawings 17

Adam Elsheimer

A negação de Pedro

ca 1600-1605

Städel Museum

Rembrandt
estudo para a grande noiva judia
Museu de Belas artes, Estocolmo, Suécia 

Continuação

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