Introdução

Precisamos de início abordar o que se entende por desenho de uma maneira simples e direta. Todo desenho é uma representação gráfica das formas. Uma obra não é desenho a não ser por seu caráter gráfico. Ela, abarcando ou não a cor, deve ser considerada de tal modo que conserve essas características, não importando as dimensões, os procedimentos e os assuntos tratados e utilizados. Ela se torna propriamente pintura, por exemplo, quando a cor absorve o traço ou quando o aspecto proveniente da cor se impõe sobre o gráfico.

Podemos observar que muitos procedimentos históricos do desenho são  pouco ou mal conhecidos. Muitas informações são entendidas erroneamente ou tendem a causar confusão. Dessa forma, bistre, sépia são muitas vezes nomes misteriosos ou são confundidos com o nanquim; a pedra da Itália, a pedra negra ou o carvão são tratados indistintamente; a técnica da ponta de metal é geralmente ignorada, assim como o pastel, o carvão oleoso, o desenho das três pedras, etc, recebem pouca atenção diante do papel que desempenharam na história do desenho. Não existe entre nós, em português, nenhuma obra que nos esclareça longamente acerca desses usos e materiais. No Brasil, a fortuna crítica sobre o assunto é escassa e as poucas publicações encontram-se há muito esgotadas ou são de difícil acesso. Os textos aqui reunidos visam diminuir modestamente essas faltas. E tal empreitada também não nos dispensa de remontar às fontes e de consultar os antigos tratados técnicos, quando eles se fizerem necessários para um entendimento mais amplo da história do desenho. Os resultados das pesquisas e experiências pessoais e coletivas visam libertar-nos de incertezas e lacunas produzidas pela distância existente entre nossa formação e às muitas obras consagradas, em outras línguas, à técnica e à evolução do desenho. Nós reveremos, em mais de uma ocasião, as páginas desse manual, sempre que nossos estudos indicarem correções de rota a serem feitas.

O estudo dos desenhos revela uma ligação estreita entre a evolução dos procedimentos e das artes em si. Os movimentos estéticos foram geradores de meios técnicos e é impossível pensá-los separadamente. É no contexto dessa influência que surge a invenção das pontas de metal e dos papéis preparados, da pedra da Itália e da sanguínea , do pastel e do grafite, por exemplo. Essas considerações satisfariam se fosse necessário justificar o presente estudo. Mas, é preciso ressaltar, que a predileção de uma escola ou de um mestre por este ou aquele meio expressivo é um traço de seu temperamento, revela sua psicologia e suas tendências artísticas, e que o emprego do mesmo procedimento por dois artistas ou duas escolas, longe de ser efeito do acaso, revela um laço entre eles. Não podemos ignorar, por exemplo, as extensas cadeias que religam Joseph Beuys (1921-1986) a Leonardo (1452-1519), redimensionando os séculos que os separam. Ou, para pensarmos em nosso caso, as noções sobre o desenho desenvolvidas e implantadas no XIX, no Brasil, e certa dificuldade que temos de refletir sobre o desenho fora do sistema das belas artes.

Sem querer entrar nos longos desenvolvimentos que ultrapassariam o escopo que nós nos propusemos, qual seja o de sempre partir da oficina, ateremo-nos, nas páginas seguintes, a descrever os materiais do desenho: corantes líquidos – tintas e cores de aquarela, tidas como auxiliares da pena e do pincel -, corantes sólidos – pontas metálicas, carvão, pedras, pastéis, lápis grafite, etc. Nós descreveremos, por outro lado, os processos que transformaram estes materiais em obras e insistiremos, ainda, sobre os dois pontos seguintes: quais características permitem distinguir estes materiais e estes procedimentos nas folhas que chegam até nós e quais aplicações as diferentes escolas fizeram deles. Após isto, nos restará dizer algumas palavras sobre os suportes do desenho – tábua, pergaminho, papel, tecidos – e, por fim, tirar deste estudo as conclusões que ele poderá comportar.

Faremos também um esforço para aproximar essa história do desenho das práticas contemporâneas, investigando procedimentos hodiernos e seus espelhamentos com a cultura que circunda os desenhistas de hoje. Em nossos estudos, onde procedimentos e obras se encontram teremos a técnica.

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2 Respostas para “Introdução

  1. Esther de Castro

    Muito bem vinda a proposta. Trabalho com desenhos indígenas.

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